domingo, 9 de outubro de 2011

Vettel: mata, mostra o dedo mas não mostra o pau

Desafio qualquer um a fazer (ou encontrar) um vídeo com os melhores momentos de Vettel na pista: melhores ultrapassagens, shows na chuva (não valem situações onde acontece de parar de chover e um piloto tem sorte de estar na hora certa com os pneus certos, como Button no Canadá ou a primeira de Vettel em Monza, quando este seria, pela telemetria, provavelmente superado por Hamilton vindo de 16º), etc.
Encontre um momento de Vettel superando na pista um grande companheiro de equipe.
Encontre esses melhores momentos em vídeo e publique. Daí poderemos colocar essas gravações ao lado dos melhores momentos de Senna.
Pelas estatísticas (aproveitamento/idade), Vettel é o melhor piloto de todos os tempos.
Onde está, no braço, na pista; no vídeo, a tradução desses números?
Quando pesquiso as carreiras de Senna ou Gilles Villeneuve (que morreu antes de ser campeão), delicio-me com muitos minutos de manobras e desempenhos na chuva excitantes. Leio por horas sobre as proezas desses dois.
Assisti a todas as corridas de Vettel, e não consigo lembrar de um único lance sequer.
As regras da Fórmula 1 atual com seus pneus de borracha escolar e seus botões de "Nitro" a la Need for Speed trazem uma situação superinteressante: sai-se melhor aquele que "corre menos". Trazem de volta uma característica da Fórmula 1 pré-Senna. Nessa época os carros, muito frágeis, não podiam ser forçados "to race" durante muito tempo. Era preciso "administrar" os carros. Pilotos medíocres como Button se dariam muito bem naqueles tempos. A diferença é que naqueles tempos pilotos morriam...
Hoje , numa F1 quase sem perigos, há algo de errado quando o mediano (medíocre?) é privilegiado em detrimento do gênio.
Uma pena para espectadores que como eu querem ver corridas; não números numa tabela.
Gosto de ver o mesmo que Jeremy Clarkson, do Top Gear:


sábado, 29 de maio de 2010

Lost: Tinha uma ilha no meio do caminho ou o funeral triste da televisão

O seriado Lost finalmente chegou ontem ao seu final. Não é preciso dizer que foi o season finale mais aguardado da década. E, como muitos devem concordar (ainda que por motivos diversos), foi um final extremamente frustrante. Foi frustrante não por deixar sem resposta “os mistérios da ilha”; o final foi pura e simplesmente ruim. Episódios excelentes ao longo da série criaram em mim a expectativa de que os autores escreveriam algo genial para o desfecho. E daí que fiquei boquiaberto, incrédulo quando vi sem maiores cerimônias copiarem um trecho do roteiro escrito por M. Night Shyamalan, nome pelo qual é conhecido o indiano autor de O Sexto Sentido e ponto final. Fim. Acabou. Mas, antes de terminar, vamos recordar um pouco os fatos e esclarecer algumas coisas que, pelo que venho lendo na internet em sites de fãs do seriado, parecem ter passado despercebidas. A série televisiva em questão foi importante por um motivo, mas teve o apreço de grande parte de seus fãs por outras razões. Se o seriado foi importante para história da televisão, foi justamente por marcar o início do fim deste veículo como o conhecíamos. Lost foi a primeira série a explorar as novas possibilidades de outros canais de transmissão de dados como a internet. E fez isso trabalhando com o fato de os espectadores, em novos meios tecnológicos, poderem se encontrar e trocar idéias sobre as produções de entretenimento as quais assistem num grau que não era possível antes. A série fez o público buscar na internet as referências (ou “pistas de mistérios”) nas quais a história era baseada. Dessa forma, os produtores podiam acrescentar as idéias mais “difíceis”, ou melhor, inacessíveis, que o público, por meio da internet, encarregar-se-ia (putz! que feio!) de buscar as referências; possibilitando assim o desenvolvimento de assuntos que eram praticamente impensáveis de se tratar num seriado televisivo. Assuntos que passam por religião, filosofia e até física quântica. Mas como dito acima, os espectadores se aproximaram do seriado por outras razões. O estilo de novela de mistério com peças que vão se encaixando numa narrativa ágil, como em O Código Da Vinci, é que chamou a atenção do público e o prendeu por tanto tempo. Mas a qualidade da produção vai muito além disso. Lost se sustenta basicamente por ser boa literatura. Os elementos da trama abordados com o uso de metáforas e a parábola que é o próprio enredo são riquíssimos em citações dos mais diversos tipos. A ilha funcionando como cenário, ou tabuleiro, para a exposição de teorias filosóficas, mais religiosas ou mais científicas, no campo da metafísica funciona muito bem. O público, porém, num primeiro momento atraído pelo thriller de ficção científica, não aceitou nada bem o uso que os autores fizeram de sua atenção. E aí está o grande equívoco e a grande ironia: aquilo que fez os espectadores amarem o seriado foi usado pelos escritores deste para fisgar o público; mas as reais intenções literárias dos autores (intenções que deram origem à maior parte das qualidades da trama) foram muito além do desejo de seu público, que queria apenas... a “isca” inicial. Numa pesquisa atenta em fóruns de discussão na web, não é difícil perceber a maior parte do público queria. Basta ver a infinidade de listas, geralmente intituladas de “mistérios” ou “respostas pendentes”, com itens como “o que é o monstro de fumaça?”, “quem construiu a estátua de quatro dedos?”, “o que é a ‘luz’?”. Mas como responder a perguntas como: “porque ele se transforma numa barata?” (A Metamorfose, Kafka), “o que é o monolito” (2001: Uma Odisséia..., Arthur C. Clarke). Ou se preferir: “o que é a pomba do espírito santo?”, “como e para quê Jesus ressuscitou?”, “como ele nasceu de uma virgem?”, “onde fica o inferno?”, “se o paraíso está ‘além’, aqui é o quê?”, “o que é o vinho que os discípulos bebem?”, “o que é nirvana?”, “o que significa o símbolo do yin-yang?”etc., etc. Ou, bem precisamente: “o que é a ilha para onde vão os personagens e como Ariel, que causa o naufrágio daqueles homens, transforma-se em ar, água ou fogo?” (A tempestade, Shakespeare). É uma parábola, oras! Dessa forma, se atendo à “isca”, os espectadores perdem a oportunidade que a grande literatura proporciona: “tornar acessível, ao homem médio, uma carga de vivência maior que aquela que a própria vida pode oferecer; e uma sabedoria que ele não conseguiria de outra forma” (Harold Bloom). Lost, fazendo uso da web, foi o último grande seriado televisivo que deu esse “acesso” ao público médio. É uma tentativa de levar a arte de Shakespeare, de contar histórias em duas horas, para novas mídias mais coletivas. Em literatura, que Lost de fato é, cada palavra é importante na construção da parábola. Cada fala dos atores tem um significado importante na trama. O público de Lost, porém, parece não estar interessado nesse tipo de literatura. E esse ponto, aliás, nos leva de volta a observação inicial quanto à qualidade do final da série. As ambições literárias de Lost não são muito diferentes das de um Paulo Coelho ou de um William P. Young (este bem familiar dos espectadores). Acontece que, ao contrário da dupla citada, a série vinha executando suas ambições de forma elegante em sua própria mídia; com muito mais talento que aqueles escritores na sua. Isso, com altos e baixos, até esse season finale. Ali, Carlton Cuse e Damon Lindelof perderam a chance de fazer história como sendo, além de criadores de uma produção importante para a história do fim da televisão atual, autores de uma grande estória. Ironicamente, parece que os autores acabaram se perdendo em sua própria ilha. Tropeçando em sua própria parábola. Um grande anticlímax em todos os sentidos. Seja para os espectadores que foram “abandonados” em sua ânsia por respostas, seja para aqueles que apreciavam suas qualidades literárias. Um final ruim, para todo tipo de público, de uma série que tinha sido muito boa, pelo menos para parte dele.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Tom Zé e a Origem do Universo

Supercordas: esta é a última “roupa” que físicos teóricos vestiram em sua ânsia de encontrar uma teoria final que unificasse todas as outras observações da natureza e explicasse a origem do Universo. E nessa busca eles têm falhado sucessivamente. Busca, aliás, muitíssimo antiga. Desde a Grécia antiga e de filósofos como Platão, cultiva-se a idéia de um “arquiteto” que teria criado o Cosmo e um homem feito à sua imagem e semelhança, o qual seria munido da razão necessária para decodificar a perfeição do mundo e a unidade de tudo o que existe. Platão chamava esse arquiteto, o “exactus”, de Demiurgo. E essa noção de “uno”, de universalidade, foi dar no Deus das religiões monoteístas do Ocidente.
Esses conceitos de natureza (a Phýsis dos gregos) influenciaram de forma decisiva todos os filósofos e físicos que se consagrariam depois, como Newton e Einstein: tudo feito por Deus (a Natureza) é perfeito e devemos então descobrir essa perfeição em busca dos “segredos” da realidade que nos cerca. Essa idéia de perfeição e beleza também definiu os rumos que as Artes tomaram. Música bela, por exemplo, é aquela que segue as regras, que conhecemos por meio da matemática, do Criador perfeito e uno.
Em seu novo livro, “Criação Imperfeita: Cosmo, Vida e o Código Oculto da Natureza”, o destacado físico Marcelo Gleiser critica justamente essa idéia supracitada de natureza, tão perseguida por cientistas e filósofos. E Gleiser faz isso de maneira simples e elegante, demonstrando que essa postura perante a ciência é filosoficamente errada. Como o próprio autor comenta em entrevista a Saraiva (aquela; não esta ^^): “O nosso conhecimento do mundo depende de como a gente olha para esse mundo. E como que a gente olha pra esse mundo? Com os cinco sentidos e com os nossos instrumentos: microscópios, telescópios, etc. É claro que existe muito mais no mundo do que a gente pode enxergar. Nessa sala aqui agora há toda uma radiação eletromagnética que a gente não consegue enxergar, o que não significa que ela não seja real. Como que a gente pode ver isso? Com os nossos instrumentos. Só que nossos instrumentos são limitados. O que significa que a gente não pode ver ‘tudo’ sobre o mundo. E se a gente não tiver uma totalidade de informação sobre o mundo, a gente nunca vai poder ter uma teoria que descreve o mundo inteiro porque a gente simplesmente não conhece o mundo inteiro! Então existe um problema fundamental nessa busca: cientificamente ela não faz sentido”. E a partir do que a gente conhece do mundo, Gleiser observa que nosso Universo estaria muito mais ligado à imperfeição e às diferenças. Essas diferenças, inclusive, são cientificamente necessárias para a própria existência de vida. A crítica mais profunda que o físico brasileiro faz é sobre a busca dos físicos em si mesma. Essa busca estaria muito mais para o mito e para a religião do que para a ciência.
Bem, mas e o Tom Zé? Acontece que ultimamente venho conversando com alguns amigos sobre Estética na música e uma das coisas que mais escuto é que artistas como Tom Zé, O Chato, fazem apenas “palhaçada”. “Fingem estar fazendo música com algum sentido para parecer intelectuais”, “fazem apenas um... caos”. E aí é que está: esse tipo de pensamento é muito antiquado, pois está em desacordo com as observações contemporâneas de cientistas como Marcelo Gleiser. Com as descobertas da ciência e suas conseqüentes implicações na estética, artistas “caóticos” como Tom Zé devem ser reconsiderados. Assim como outros que vieram na esteira dos Beatles como os contemporâneos daquele na Tropicália e mais tarde Björk e afins. Tom Zé seria o “anti-engenheiro”, o “anti-arquiteto” da música. A lógica deles é caótica e destrutiva; mas é lógica. Não ouço Tom Zé, por que acho muito chato. Mas a criação desses artistas, vista por muitos como... “imperfeita”, está muito mais próxima do que conhecemos de Deus/Natureza do que aquela de artistas com os quais o público é mais, digamos, “religioso”.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Jesus perdoa os Beatles

E Deus disse: que os Fab Four sejam perdoados pelas letras de cunho satânico e também pelo uso do cigarrinho do capeta. Veja no Telégrafo. Deu no L’Osservatore Romano, orgão oficial de imprensa do Vaticano: "Eles podem não ser o melhor exemplo da juventude da época, mas não eram, de maneira nenhuma, o pior. Suas belas melodias mudaram a música e continuam a dar prazer", diz o artigo sobre os quatro ingleses. O periódico da Igreja também expressa tristeza pelo fim da banda em abril de 1970 e pede que o públio cátolico reflita "como a música pop teria sido sem os Beatles". Bem de acordo com o que foi dito por este blog há algumas semanas e que pode ser visto aqui. Será que o papa, que fala muito bem o português, esbarrou com o Blog da Saraiva (quem sabe pelo nome bíblico?) numa madrugada de navegação pela web? Se assim tiver sido, que Deus continue a iluminar este blog trazendo novos leitores fiéis!
Tempos atrás, o Vaticano perdoou a alma de John Lennon pela famosa declaração de que os Beatles eram "mais famosos do que Jesus". À época do indulto, o L’Osservatore escreveu que "A declaração de John Lennon, que provocou tanta indignação nos Estados Unidos, depois de todos estes anos soa como uma bravata de um jovem proletário inglês às voltas com um sucesso inesperado". O artigo desta semana do jornal da Santa Sé relembra a indulgência e diz que os Beatles podem ter sido bem seculares mas que sua música será sempre divina.
Para selar a amizade, um concurso inglês indicou o maior representante vivo de Deus para um prêmio de música. Sua Santidade solta a voz em Música do Vaticano (Alma Mater apresentando a voz do papa Bento 16). Se o papa ganhar, os católicos prometem dar o troco com camisetas com a capa do disco de Bento escritas "Bigger than Beatles"!


"All you need is love! All you need is love! Love! Love is all you need".

segunda-feira, 29 de março de 2010

Favela Escola

Agora a pouco, vi uma reportagem sobre escolas feitas de lata. Lembro-me que o assunto foi tema de debate em campanha de candidatos à Prefeitura de São Paulo, inclusive. Os candidatos prometiam "exterminar essa vergonha que são as escolas de lata". Também me recordo de um bispo político que realizou um projeto para "revitalizar" as fachadas de casas em morros de "comunidades". E é relativamente famosos o comentário do professor de matemática Luiz Barco sobre um prefeito que achou que, pintando a favela de rosa ela deixaria de ser favela. Mal imaginam esses sábios edukadores e pedos gôgos que na China dão aulas - até de matemática vejam só - em cavernas. Reclamam que "esses esquerdistas do PT" estão acabando com a educação e com a cultura brasileiras (já houve aqui essas duas?).
Mas esses pobres (pobres porque não têm justamente educação e cultura), que vivem em busca de uma boquinha, de uma tetinha da pátria amada (fosse mátria talvez resolvesse?); eles não fazem diferente daqueles d'antes, que acharam que escrevendo os escudos de nossas universidades em latim fariam essas tão boas quanto aquelas de outras bandas. Escreveram em latim, mas esqueceram de ensinar ao povo a língua na qual escreviam. Soubesse o povo aquilo que ali estava escrito e talvez ele quisesse até mudar o mote para algo mais, digamos, veritas.
Nosso ensino não é ruim por não termos mármore na entrada das escolas. Tampouco o é pela qualidade das paredes de lata ou de barro - ou até mesmo pela falta, tão grega, delas. Se nossas crianças são mal formadas, isso é consequência da má qualidade, aqui, desse ser humano chamado "pai" e "professor". E não minha cara ONG da "igualdade afroindígena-branca-amarela-parda-marronzinha-..." (de quantas cores eles precisam pra se satisfazer?): não falo de genética. Falo de... educação.

P.S.: Originalmente, Luiz Barco usou o termo "favela escola" para se referir ao ensino japonês. Mas isso é assunto para uma outra postagem.

"Vocês de direita, vocês de esquerda:
São todos babacas. Velhos demais.
Brigando por intrigas de tempos atrás"

Renato Russo

sábado, 27 de março de 2010

F1: A história escrita pelos que não têm nome


Em 1993 o já tricampeão mundial de Fórmula Um Alain Prost voltou de sua aposentadoria. O motivo: o controle de tração, os freios ABS e a suspensão ativa que o carro da Williams oferecia. Fez 13 poles e venceu 7 corridas.
Poderia comentar os dois títulos de Fernando Alonso também. Mas não são necessa´rias situações tão "trágicas" como essas para demonstrar que a Fórmula Um tem bem pouco de esporte...
Corre o boato nos bastidores do campeonato deste ano de que a equipe Red Bull teria encontrado uma forma de implementar a suspensão ativa (banida no fim de 1993) de forma mecânica, uma vez que o controle eletrônico é proibido. A implementação deve ser um tanto quanto sofisticada, mas a idéia é conhecida até por pacatos cidadãos brasileiros que rebaixam seus carros.

Acontece que as regras do campeonato atual, definem que os carros não podem reabastecer durante as corridas. E isso causa uma grande diferença entre a classificação - quando os carros estão muito leves com pouquíssima gasolina - e a corrida - os carros largam de tanque cheio. No entanto, as equipes não podem mexer nos ajustes do carro (inclusa aí a suspensão) do sábado de qualificação para o domingo de corrida. De tal forma que o sistema da Red Bull driblaria essa limitação fazendo com que a suspensão se adequasse a variação de peso do carro deixando-o sempre colado ao chão e assim aumentando o desempenho.
É... Parece que o campeão deste ano já está definido. Como foi dito neste blog em outra ocasião, a Fórmula Um é uma competição tecnológica que algumas vezes (raras vezes) se mostra como um esporte.
Só fico chateado com duas coisas: acharem alguns gênios pelos motivos errados e deixarem de colocar o nome dos membros de equipes de engenharia esquecidos, bem abaixo do nome de pilotos, quando deveria ser justamente o contrário.

Segue um videozinho superlegal sobre engenharia. O qual serviria muito bem pra mostrar a certos professores medíocres como se deve dar aulas. Mas isso é uma outra postagem.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Renato Russo: o amor está morto

Renato Russo nasceu no dia 27 de março de 1960. O período que aí começa e vai até o dia 11 de outubro de 1996 foi amplamente registrado pela imprensa. Seria muito difícil, aqui, acrescentar algo sobre a vida do artista carioca que não possa ser encontrado facilmente em ótimas revistas como a extinta Bizz. A partir dos fatos que se conhece sobre Renato, pode-se tentar vislumbrar muito do como foi sua vida. Vida essa muito útil para se fazer reflexões. Essas reflexões eram estimuladas pelo próprio biografado, que sempre que pode tentou passar ao público alguma coisa tirada de sua própria experiência - Renato julgava muitíssimo valioso o aprendizado que se pode tirar de uma biografia e de conversas. Ao mesmo tempo, o artista se sentia incomodado por levarem isso a proporções messiânicas. De qualquer forma, Renato foi um grande prosador e suas entrevistas contém referências de grande valor (principalmente para os jovens).
Mas hoje eu queria falar um pouco sobre o trabalho dele. Esse também foi muito analisado. Existem livros, inclusive, sobre suas letras, relacionando-as a referências literárias.
Quero me ater à fase mais madura de Renato Russo. Por coincidência essa é sua fase menos popular. Não que o trabalho anterior a tal período seja inferior. Não: toda sua carreira é preenchida por belas composições. Nos últimos discos, porém, Renato atinge um aperfeiçoamento e uma criatividade sem paralelo no que se chama de rock ou pop no Brasil e no mundo. Seu canto se refina explorando novas nuances e suas letras surgem com passagens geniais e com temáticas inéditas no que podemos chamar de "literatura musical". Essa combinação de significado verbal e canto de Renato Russo por vezes atinge um pathos (grosso modo, a emoção que o artista evoca) e um ethos (idem, a capacidade intelectual do orador ) difíceis de ser encontrados em qualquer outro registro fonográfico. Talvez sequer na inspiração de Russo, Joni Mitchell, e no outro "filho" dessa, Morrissey (dentre outros como Ian Curtis) se ache algo à altura. Por vezes, críticos brasileiros afirmam que as letras do roqueiro não podem ser consideradas poesia, uma vez que se sustentam muito na potente voz do artista.

Renato tinha clara consciência de que uma canção é "poesia ajudada por música" (como escreveu o poeta português Fernando Pessoa). Por isso mesmo, suas letras eram muito ligadas a seu canto; à sua maneira de expressar determinadas emoções por meio de música. Essa, aliás, também mal analisada pelos grandes tupiniquins. É comum que se ouça "as letras eram muito boas, mas as músicas eram medíocres". No entanto, esquecem que a melodia, que é ligada à poesia, e o canto fazem parte da música. Talvez pensem assim, pelo fato de a poesia brasileira não ser baseada fortemente numa tradição musical (como a poesia inglesa por exemplo).

É uma pena que o último disco desse grande artista brasileiro tenha tido sua gravação prejudicada por complicações na saúde do artista que afetaram demais sua voz. Em algumas faixas, chega-se a se ouvir algo próximo a sussurros. Em outras, como "Sagrado Coração", não existe voz, porque Renato não conseguiu gravar. De qualquer forma, até mesmo esses obstáculos contribuem poeticamente, dando às gravações uma autenticidade intimidadora. Cabe aqui explicar que aquilo que foi lançado como o álbum Uma Outra Estação originalmente formava com o lançamento anterior A tempestade ou O Livro dos Dias um mesmo disco duplo. E desses últimos anos de trabalhos (1993 a 1996) constam peças geniais, como "Giz" e "Longe do meu lado". Geniais pois tratam de um assunto inédito na música: o fim do amor romântico. Renato, que sempre foi um romântico, passa a indagar se esse tipo de amor não seria na verdade uma fonte de sofrimento que deveríamos evitar e expõe novas possibilidades. Nessa época, o artista diz não acreditar mais em amor românctico; apenas em sexo e amizade:

Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver
És parte ainda do que me faz forte
E, pra ser honesto,
Só um pouquinho infeliz

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Se a paixão fosse realmente um bálsamo
O mundo não pareceria tão equivocado
Te dou carinho, respeito e um afago
Mas entenda, eu não estou apaixonado
...

A paixão quer sangue e corações arruinados
E saudade é só mágoa por ter sido feito tanto estrago
E essa escravidão e essa dor não quero mais

Com suas derradeiras criações, Renatoto Russo se colaca no mesmo patamar de artistas consagrados como Chico Buarque e Caetano Veloso. Mas com a diferença de que suas canções têm um poder de emocionar muito superior ao de qualquer um dos músicos digamos mais "cabeça". Renato também não deixa por menos em se tratando de "apuro técnico". Suas letras são simples mas muito belas e estão de
acordo com a liberdade conseguida
na poesia de Pessoa e tornada clássica, aqui no Brasil, por Drummond. Afinal, não é o barulho ou guitarras virtuosísticas a grande contribuição do rock. O legado do estilo dos Beatles e de Bob Dylan foi dar à música popular o mesmo que Whitman e outros deram à poesia: pode-se fazer o que quiser, desde que seja belo. E um pouco dessa beleza pode ser vista em "O livro dos dias", inspirada em O Livro dos Dias, um diário das Cruzadas, livro de Stephen J. Rivelle onde o autor conta a busca por seus ancestrais, quando encontra o diário de um nobre francês escrito em meio às Cruzadas. Tais relatos descrevem o ser humano, com suas paixões e sua sexualidade, na Idade das Trevas de forma franca e impactante. Essa foi a última faixa do último álbum lançado com Renato Russo ainda em vida. A canção joga luz sobre o único tema que, como colocou Oscar Wilde, resiste ao tempo na Arte. Um resumo do amor romântico em nosso tempo - e em qualquer época - escrito com flores:

Ausente o encanto antes cultivado

Percebo o mecanismo indiferente
Que teima em resgatar sem confiança
A essência do delito então sagrado
Meu coração não quer deixar
Meu corpo descansar
E teu desejo inverso é velho amigo
Já que o tenho sempre a meu lado

Hoje então aceitas pelo nome
O que perfeito entregas mas é tarde
Só daria certo aos dois que tentam
Se ainda embriagado pela fome
Exatos teu perdão e tua idade
O indulto a ti tomasse como bênção

Não esconda a tristeza de mim
Todos se afastam quando o mundo está errado
Quando o que temos é um catálogo de erros
Quando precisamos de carinho
Força e cuidado
Este é o livro das flores
Este é o livro do destino
Este é o livro de nossos dias
Este é o dia de nossos amores

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Que o Amor descanse em paz!