
Renato Russo nasceu no dia 27 de março de 1960. O período que aí começa e vai até o dia 11 de outubro de 1996 foi amplamente registrado pela imprensa. Seria muito difícil, aqui, acrescentar algo sobre a vida do artista carioca que não possa ser encontrado facilmente em ótimas revistas como a
extinta
Bizz. A partir dos fatos que se conhece sobre Renato, pode-se tentar vislumbrar muito do como foi sua vida. Vida essa muito útil para se fazer reflexões. Essas reflexões eram estimuladas pelo próprio biografado, que sempre que pode tentou passar ao público alguma coisa tirada de sua própria experiência - Renato julgava muitíssimo valioso o aprendizado que se pode tirar de uma biografia e de conversas. Ao mesmo tempo, o artista se sentia incomodado por levarem isso a proporções messiânicas. De qualquer forma, Renato foi um grande prosador e suas entrevistas contém referências de grande valor (principalmente para os jovens).
Mas hoje eu queria falar um pouco sobre o trabalho dele. Esse também foi muito analisado. Existem livros, inclusive, sobre suas letras, relacionando-as a referências literárias.
Quero me ater à fase mais madura de Renato Russo. Por coincidência essa é sua fase menos popular. Não que o trabalho anterior a tal período seja inferior. Não: toda sua carreira é preenchida por belas composições. Nos últimos discos, porém, Renato atinge um aperfeiçoamento e uma criatividade sem paralelo no que se chama de rock ou pop no Brasil e no

mundo. Seu canto se refina explorando novas nuances e suas letras surgem com passagens geniais e com temáticas inéditas no que podemos chamar de "literatura musical". Essa combinação de significado verbal e canto de Renato Russo por vezes atinge um
pathos (grosso modo, a
emoção que o artista evoca) e um
ethos (idem, a capacidade intelectual do orador ) difíceis de ser encontrados em qualquer outro registro fonográfico. Talvez sequer na inspiração de Russo, Joni Mitchell, e no outro "filho" dessa, Morrissey (dentre outros como Ian Curtis) se ache algo à altura. Por vezes, críticos brasileiros afirmam que as letras do roqueiro não podem ser consideradas poesia, uma vez que se sustentam muito na potente voz do artista.
Renato tinha clara consciência de que uma canção é "poesia ajudada por música" (como escreveu o poeta português Fernando Pessoa). Por isso mesmo, suas letras eram muito ligadas a seu canto; à sua maneira de expressar determinadas emoções por meio de música. Essa, aliás, também mal analisada pelos grandes tupiniquins. É comum que se ouça "as letras eram muito boas, mas as músicas eram medíocres". No entanto, esquecem que a melodia, que é ligada à poesia, e o canto fazem parte da música. Talvez pensem assim, pelo fato de a poesia brasileira não ser baseada fortemente numa tradição musical (como a poesia inglesa por exemplo).

É uma pena que o último disco desse grande artista brasileiro tenha tido sua gravação prejudicada por complicações na saúde do artista que afetaram demais sua voz. Em algumas faixas, chega-se a se ouvir algo próximo a sussurros. Em outras, como "Sagrado Coração", não existe voz, porque Renato não conseguiu gravar. De qualquer forma, até mesmo esses obstáculos contribuem poeticamente, dando às gravações uma autenticidade intimidadora. Cabe aqui explicar que aquilo que foi lançado como o álbum
Uma Outra Estação originalmente formava com o lançamento anterior
A tempestade ou O Livro dos Dias um mesmo disco duplo. E desses últimos anos de trabalhos (1993 a 1996) constam peças geniais, como "Giz" e "Longe do meu lado". Geniais pois tratam de um assunto inédito na música: o fim do amor romântico. Renato, que sempre foi um romântico, passa a indagar se esse tipo de amor não seria na verdade uma fonte de sofrimento que deveríamos evitar e expõe novas possibilidades. Nessa época, o artista diz não acreditar mais em amor românctico; apenas em sexo e amizade:
Desenho toda a calçada Acaba o giz, tem tijolo de construção Eu rabisco o sol que a chuva apagou Quero que saibas que me lembro Queria até que pudesses me ver És parte ainda do que me faz forte E, pra ser honesto, Só um pouquinho infeliz------------------------------
Se a paixão fosse realmente um bálsamo O mundo não pareceria tão equivocado Te dou carinho, respeito e um afago Mas entenda, eu não estou apaixonado...
A paixão quer sangue e corações arruinados E saudade é só mágoa por ter sido feito tanto estrago E essa escravidão e essa dor não quero maisCom suas derradeiras criações, Renatoto Russo se colaca no mesmo patamar de artistas consagrados como Chico Buarque e Caetano Veloso. Mas com a diferença de que suas canções têm um poder de emocionar muito superior ao de qualquer um dos músicos digamos mais "cabeça". Renato também não deixa por menos em se tratando de "apuro técnico". Suas letras são simples mas muito belas e estão de

acordo com a liberdade conseguida
na poesia de Pessoa e tornada clássica, aqui no Brasil, por Drummond. Afinal, não é o barulho ou guitarras virtuosísticas a grande contribuição do rock. O legado do estilo dos Beatles e de Bob Dylan foi dar à música popular o mesmo que
Whitman e outros deram à poesia: pode-se fazer o que quiser, desde que seja belo. E um pouco dessa beleza pode ser vista em "O livro dos dias
", inspirada em
O Livro dos Dias, um diário das Cruzadas, livro de Stephen J. Rivelle onde o autor conta a busca por seus ancestrais, quando encontra o diário de um nobre francês escrito em meio às Cruzadas. Tais relatos descrevem o ser humano, com suas paixões e sua sexualidade, na Idade das Trevas de forma franca e impactante. Essa foi a última faixa do último álbum lançado com Renato Russo ainda em vida. A canção joga luz sobre o único tema que, como colocou Oscar Wilde, resiste ao tempo na Arte. Um resumo do amor romântico em nosso tempo - e em qualquer época - escrito com flores:
Ausente o encanto antes cultivado Percebo o mecanismo indiferente Que teima em resgatar sem confiança A essência do delito então sagrado Meu coração não quer deixar Meu corpo descansar E teu desejo inverso é velho amigo Já que o tenho sempre a meu lado Hoje então aceitas pelo nome O que perfeito entregas mas é tarde Só daria certo aos dois que tentam Se ainda embriagado pela fome Exatos teu perdão e tua idade O indulto a ti tomasse como bênção Não esconda a tristeza de mim Todos se afastam quando o mundo está errado Quando o que temos é um catálogo de erros Quando precisamos de carinho Força e cuidado Este é o livro das flores Este é o livro do destino Este é o livro de nossos dias Este é o dia de nossos amores
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Que o Amor descanse em paz!