
(O leitor e a leitora devem saber, por experiência própria, que o textículo anterior fica sempre um pouco mais para baixo, em blogs comuns. Sugiro que comecem por aí, pois serve como preliminar para que o assunto seja mais facilmente introduzido)
A banda que mais tarde ficaria mundialmente conhecida como The Beatles teve sua formação numa escola que reunia todo tipo de música americana que chegava ao porto inglês de Liverpool na segunda metade dos anos 50. De rock’n’roll e skiffle a baladas românticas, o grupo liderado por Paul McCartney (baixo e vocal) e John Lennon (guitarra e vocal) ouvia de tudo muito e partia para aulas práticas em bares tradicionais da Inglaterra - palco que mais tarde seria expandido para outros cantos da Europa. Nessa universidade, o grupo de adolescentes desenvolveu um estilo único que, se não era composto de nada original, tinha no resultado da mistura sua genialidade. Ao som e à atitude, Brian Epstein (que se apaixonara por John) acrescentou uma imagem: estavam criados o Rock e o Pop como conhecemos. Após publicarem um mestrado de como ser a maior banda do mundo, os já definitivos Fab Four (com o moleque virtuose George Harrison na guitarra e o supereficiente Ringo Starr na bateria) conheceram seu orientador de doutorado. Este americano, compositor principalmente de folk songs e respeitadíssimo por sua pesquisa sobre O Seu Tempo e O Vento de Todos, encorajou os rapazes ingleses a ir cada vez mais fundo em suas descobertas - que iam da música indiana e da literatura oriental ao sampler e a gravações surrealistas. O PhD em questão era Bob Dylan, que em contrapartida decidiu jogar toda sua reputação no lixo ao adotar como estilo o rock da maneira como os Beatels o concebiam. Por essa época a banda inglesa lançou o seu Revolver, que começava com os impostos britânicos em Taxman e terminava com o Livro Tibetano dos Mortos em Tomorrow Never Knows, passando por solidão, depressão e um submarino amarelo.
Os jovens ingleses mais antenados de seu tempo inovaram tanto que mudaram dezenas de vezes sua imagem – durante toda a carreira – e seu som – durante cada disco. Na música popular industrial, a periodicidade é mensal (às vezes semanal) e isso nos anos 60 provocava um efeito muito interessante: os Beatles lançavam um trabalho e pouquíssimo tempo depois algum grupo de jovens talentosíssimos americano já tinha absorvido a idéia e feito uma obra prima em cima da mesma. Não bastasse a imensa inventividade, Paul, John e George compunham belíssimas músicas. Como disse Djavan: "Eles fizeram as melodias mais lindas de minha adolescência". Os quatro ingleses tinham tanto prestígio que dias após o lançamento do álbum (este mesmo um dos mais importantes da história) Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band tinham a honra de ver ninguém menos que Jimi Hendrix tocando e cantando para os autores a sua própria obra.
Os Beatles deixaram um legado e tanto. Praticamente criaram o produto que jovens ainda hoje consomem em seus iPods (Apple e seu famoso ícone foi também a gravadora que o grupo inglês criara para ter a liberdade de gravar e lançar o que bem entendessem). Qunado se procura um comentário sobre os Beatles, geralmente se encontra textos falando de seus recordes vários. Mas a melhor referência para se ter uma idéia mais clara de sua importância são os comentários de artistas influenciados por eles. E isso não é nada difícil. Uma vez perguntaram a Gilberto Gil o que havia sido a Tropicália (o último grande e mais importante movimento musical brasileiro que gerou coisas como o Manguebeat e que só não criou um novo ritmo por que foi assassinado antes pela ditadura militar). O preto baiano não titubeou: “O movimento Tropicalista nada mais foi do que uma cópia, no melhor sentido da palavra, do que os Beatles tinham feito anos antes”. Renato Russo sonhava ser Paul McCartney. Kurt Cobain queria ser John Lennon. David Bowie, The Smiths, Sepultura, Björk, Metallica, White Stripes, Clube da Esquina... A lista de influências não é nada curta.
O produtor Butch Vig, certa vez, respondendo a um jornalista quem teria sido a banda pioneira do estilo que ele ajudara a criar nos anos 90 (gravou Dirty do Sonic Youth, Nevermind do Nirvana e Siamese Dreams do Smashing Pumpkins), colocou para tocar a canção que segue no vídeo abaixo e disse: “É: são eles mesmos. Como sempre”.
Helter Skelter
1 comentários:
Postar um comentário